Excerpt for Cotidianos Versos by luciano antunes, available in its entirety at Smashwords

Cotidianos Versos – 93







Cotidianos

Versos


Poesias e Fabuletas para pessoas que existem

Luciano Medici


Dedicatória



























A todos que me fizeram sorrir.

Sem sorrisos, não há vida.



Agradecimento




























A todos que me fizeram sofrer.

Sem sofrimento, não há poesia.

Índice



Calendário 6

Liberdade 7

Sétimo Dia 8

Binômio 9

Demografia 11

Amor em Tempus Fugit 13

Na fumaça 17

Fome 18

Amor Lilás 19

Loucura 20

Na chuva 21

Ode à Vingança 25

Tesoura 27

Mundo Avesso 28

N´alma 33

34

Adorador de Fotografia 34

Descartes do Renne 35

Abreviatura 36

Ela 37

X 40

Para entender Maria José 41

Diz-me 42

Chocolate com Café 44

Assalto 46

Eternamente Efêmero 47

Oblíqua 49

Desesperadamente 50

Esquina 53

Cão 54

Isabela 55

Hospital 57

Janela 58

Jornal 60

Mundo Estranho 61

Olhos de Luar 65

Porta 66

Papeleiro 67

Saudade 68

Relações 70

Semelhanças 71

Sumiço 73

Vida 74

Simpatias 75

Quimera 77

In com Ciência 78

Merda 81

Palavras 82

Aos doze anos 87

Amor e Paixão 88

I need a miracle” 90

Eu preciso de um Milagre” 92




Calendário









O que é nossa vida

além de um calendário

(preso à porta do armário)

que guarda o que passou -

- sorrisos, dores, paixões -

em gavetas, cabides e caixas

nas roupas rotas por traças

lembranças de quem se amou.





Liberdade





Saiu de casa (mulher)

Saiu do trabalho (patrão)

Saiu da cela (prisão)

Saiu da cidade (qualquer)

Saiu do bar (não quer)

Saiu da boate (oficio)

Saiu do cassino (vício)

Saiu da vida (éter)






Sétimo Dia






Seis dias de labuta,

quatorze horas de trabalho,

humilhação e achincalho,

mas continua na luta.

E todas as noites matuta

que existe o sétimo dia.

Domingo é só alegria

mesmo para quem é puta.



Binômio




Homem, mulher,

macho, fêmea,

garfo, colher,

reza, blasfêmia,


Não quero, quer.


Violeta, amarelo,

preto, branco,

sapato, chinelo,

descalço, tamanco,


Não quer, quero.


Calmo, violento,

impulsivo, contido,

seguro, ciumento,

humilde, metido,


com razão, sem argumento.


Indiferença, emoção,

caído, sarado,

broxa, tesão,

solteiro, casado,


sem argumento, com razão.


Adoro, detesto,

odeio, idolatro,

sou o cara, não presto,

sinfônica, teatro,


esqueço todo o resto.


Durmo cedo, amanheço,

agitado, pare,

encolho, cresço,

cocaína, curare,


só do resto não esqueço.


Bígamo, bissexual,

bilíngüe, bissexto,

bisonho, binômio,

bipolar ao avesso


e isso é só o começo.



Demografia




A população da terra flutua

em sua demografia.

Reduz quando a noite cai,

aumenta quando a lua sai

e o sol nos devolve o dia.




Os responsáveis por isso?

Não são guerras, mortes, nascimentos,

nem sequer tragédias, tormentos

descritos em famosos anais.

São apenas alguns casais

que por serem tão especiais

e da vida não terem lamentos,

de dois, viram um só,

já na cama, sonolentos.


Quatro pernas se unem em nó,

braços enlaçam com jeito,

cabeça dorme no peito,

torsos e rostos colados.

Tão perto,

tão abraçados

que sentem respirar o parceiro,

e dormem tão agarrados,

que só precisam de um travesseiro.

Amor em Tempus Fugit

  



I



Um homem desejou,

certo dia,

separar-se do pensamento.

Fez tudo o que podia

para fugir ao tormento:

lavou a cabeça mil vezes

com água e creolina,

comeu galinha de esquina

e milho de encruzilhada,

deixou a mente nublada

com cem barris de vinho,

dançou por horas, sozinho,

sozinho viajou aos confins da terra,

escalou duzentas montanhas,

foi soldado em uma guerra,

amputou o dedo,

pregou-se na cruz,

arrancou os cravos,

lambeu seu pus.


II


E dez mil poesias recitou.

Todas elas em alto brado,

mas de nada adiantou

ao nosso valente soldado,

pois a lembrança e a memória

jamais o abandonaram

nem transformou-se em história

para sempre, continuaram

ali,

bem ao seu lado.


III

 

Então, já em desespero,

transformou-se em Florentino

que,

em completo desatino,

teve seiscentas amantes.

Mas com todas, em todos os instantes,

a cada vez que olhava,

era Ela que enxergava,

ainda a amava como antes.

 

IV


E aquilo tudo era

bem mais do que suportava.

A carga que carregava

vergou d’alma a espinha.

Despido de tudo o que tinha,

o resto de vergonha perdeu.

Ajoelhou, rezou, confessou:

de tudo se arrependeu.

Não parou de prometer,

a todos os céus pediu,

em frente a Ele se ajoelhou,

a todos os santos clamou:

me façam dela esquecer!


V


Pois ele a vê para onde quer que olhe.

Sente seu cheiro em todas as flores.

Escuta sua voz em todas as bocas,

mesmo saída de gargantas roucas,

mesmo vindo de mulher louca

que da própria roupa esquece.

Suplica:

Atendam minha prece!

Me façam dela esquecer!

Pois viver só de lembranças,

sem poder com ela falar,

sem poder nela tocar,

dói bem mais

que morrer.






Na fumaça





Anda, pára, pisca, buzina,

um dia depois do outro.

Avenida Paulista, Viera Souto,

semanas, meses, esquina

onde trabalham meninas

que não mais são bonitas

e flutuam em noites aflitas

na fumaça de gasolina.








Fome





Corre, salta, pula muro,

parado aí, seu pivete.

Tô com fome, um croquete.

Tá seco, velho, escuro.

Não roubo mais, juro.

Mais passos, mais perto, alaridos,

um, dois, três estampidos -

na barriga vazia o furo.



Amor Lilás





Meus olhos só em você

são batatas virando purê,

e o padre que em nada crê,

junto ao cego que nada vê,

está brincado com o ABC,

escrevendo o que ninguém lê,

com respostas para o porquê

do bolo conter glacê,

da cor que sai da TV.


E

lhe

pergunto:

é A?

Ou Z?


Loucura




O conceito de loucura

é fazer o que se quer?

Sendo homem ou mulher,

adolescente ou madura?

É quebrar a amargura?

Realizar todo desejo?

É jamais negar o beijo

que foi dado com ternura?


A resposta ao segredo?

Com certeza é só uma,

que emerge em meio à bruma

e se espalha neste enredo,

porque ao se viver sem medo,

fazendo o que se quer,

sendo homem ou mulher,

somos loucos em degredo.




Na chuva



Parada,

imóvel,

na chuva,

olha

a mão

com luva


e chora.


Pensa:

Por que agora?

Tantos passos,

ternura,

beijos, carinho,

abraços


e ora.


Deus,

quem consegue

fingir,

enganar,

dissimular,

não sentir?


E implora.


Tenta esquecer,

não pensar,

em tamanha traição.

Luta para acreditar

que possa

virar perdão.


E cora.


Parecia amor,

mas vira dor,

e muta.

Tanta dor

que subtrai

direito à luta.


E demora.


Logo tu,

logo ela.

Não era eu a escolhida,

não era eu a mais bela,

tua flor amarela,

tua luz, tua vida?


E senhora.


Oh, enorme,

inominável

tormento:

te ver amar minha irmã,

no altar,

em nosso casamento.


E deteriora.


Corro,

não grito.

Gosto de fel,

desapareço,

me dispo

do véu.


E demora.


Vestido, sapato,

buquê,

luva.

Último ato:

esperar a morte

debaixo da chuva.


E evapora.




Ode à Vingança




Vendetta, revanche, vingança

sentimento que faz viver.

Infligirei dor, sem perdão,

àquela que faz sofrer.


Machucarei a quem machucou,

tirarei coisas de quem coisas me tirou.


Perdi meu amor, tu perderás o teu,

apodrecerei teu íntimo, como apodreces o meu.


Mas

subirei das profundezas nas quais fui jogado em vão,

e te farei descer, todos os dias, à mais profunda escuridão.


Pois

alimento com minhas entranhas esta chama que arde,

e tomarei o que me tomaste, pedaço a pedaço, cedo ou tarde.



E

sei que somente assim, a paz voltarei a ter.

Poderei caminhar, respirar, viver,

pois cuspirei em tua alma destroçada,

vomitarei em tua face assustada

e darei uma sonora gargalhada

vendo-te chorar

por não poder morrer.





Tesoura





Teobaldo amou Tereza.

Tereza amou toda gente.

Cada noite um diferente,

mas sempre uma dama à mesa.

E quando veio a certeza

do pior dos seus temores,

com a tesoura, seus rancores

retalhou em sua princesa.




Mundo Avesso



I


Lá no Mundo Avesso

é um baita fuzuê.

Casais só têm um bebê,

e isso é somente o começo,

porque cada filho travesso

tem várias mamães e papais

a paparicarem seus ais

por qualquer coisa à toa.

Já pensou que coisa boa:

presentes em profusão

e aquela competição

por quem dá mais carinho?

Pois lá naquele mundão

ninguém se sente sozinho.


II


Sempre tem alguém querendo

brincar com a criança

(esconde-esconde, futebol, dança),

passear quando está chovendo.

E quando estamos crescendo

para o mundo adolescente

tem toda aquela gente

para nos levar na festa,

comprar a roupa da hora,

ensinar como namora,

deixar o cabelo bonito.

E quando chegamos de volta,

com ou sem escolta,

na madrugada um ovo frito

e um papo bem bacana,

vendo se precisamos de grana

sem jamais recebermos um grito.


III


Quando chega o casamento

ser um polvo da noiva é o desejo,

pois dezenas de pais em cortejo

ela leva igreja adentro.

E a festa nunca é chata.

Dezenas de mães e de avós

para arrumar os nós

de apenas uma gravata

e deixar maravilhosa,

com jeito adolescente,

a jovem e bela nubente

e seu buquê cor de rosa.


IV


E a lista de presentes

que é quase infinita,

quanta coisa bonita

que vem de todas as gentes.

Sem falar na lua-de-mel

e do belíssimo anel

que o noivo oferece

ao amor que acontece

nos lugares adoráveis.

Lembranças intermináveis

para a vida que floresce.


V


E quando chega o neto

com muitos, inúmeros avós

nas roupas presas por ilhós

com açúcar, com afeto,

brigam, se pegam as vovós

para ver quem troca a fralda,

quem faz o doce em calda,

quem rola pelo chão,

quem dá o banho -

Sou eu que limpo o ranho!

Mamãe não toca em cocô

em casa com tanto avô.

Dá para sair, ir ao cinema,

viajar, brincar, fazer o tema.

Tem criança com uma centena,

e outra com mil avós,

pois como já te disse,

em minha tagarelice,

lá ninguém fica a sós.


VI

Só tem uma parte triste:

os inúmeros funerais.

Quem gosta de enterrar os pais?

É a pior coisa que existe.

E nós fazemos em profusão,

sem parentes para ajudar,

para dividir o pesar.

Sem primos, nem tios ou irmãos.

E tudo fica vazio,

escuro, sem graça, banal.

Todos se vão, afinal.

É triste, sem graça, sombrio.

Ficamos pura solidão.

E lá, mais nada é legal.


VII


Pensando bem neste mundo avesso,

deixo de ser subversivo

por mais tentador que seja.

A falta de irmãos lateja:

prefiro o mundo em que vivo.






N´alma




Dor que nasce n'alma,
n'alma feridas fere.
Se já não (mais) me queres,
por que pulsa meu pulso então?
Porque quando me dizes não
n'alma feridas fere.
E como já não (mais) me queres,
não (mais) pulsa meu coração.

Adorador de Fotografia




Pedi a ela que

me Ofendesse

Implorei por seu

Adeus

Recebi silêncio

Nada

Voei, flutuei com

Asa quebrada

Desesperei

Na trilha gelada

Chorei, gritei, pranteei

Perante os olhos seus mas

Nem uma só palavra

Ou alforria do Adeus Tornei-me escravo de lembranças

Adorador de fotografia

Morto vivo que todo dia

se Esforça para entender

Como pode acontecer ser assim abandonado

Por quem sorria ao meu lado jurando sempre me amar

Sumindo do meu olhar

e assim

Passo noites em deriva

Coração, nervos, estiva

Profundo e revolto mar

Que um dia chamamos de lar


E

Luto todos os dias desesperadamente

Para ainda




poder respirar









Descartes do Renne




Penso.

Então hesito,

fico tenso

porque desisto

de pensar para que existo

como matéria, corpo denso

que existe só porque penso.






Abreviatura





Vivo em sala escura

entre livros e palavras.

Delas, sou escrava,

me alimento de cultura,

sei que é completa loucura

desejar tudo conhecer,

ínfimo será o saber.

Sou abreviatura.



Ela




O que gera uma paixão

e deixa transtornado,

deixando tudo de lado:

lógica, conduta, razão.

Quando o homem vai ao chão,

por mais forte que seja,

e só de ver a quem deseja,

perde rumo, destino, noção.


Seria o toque da mão

ou o dentinho quebrado?

Talvez o cheiro exalado,

mistura de perfume e suor,

aquele cheiro só seu.

Uma em três bilhões.

Inspira pele, pulmões

faz nobre virar plebeu.


E o mundo fica colorido

quando a vemos desfilar

de saltos a flutuar,

as pernas sob o vestido

longas, curtas, grossas, fascina.

Saltitando sobre lajotas,

música em suaves notas,

é formosa bailarina.



Às vezes, só o cabelo

já nos deixa encantados.

E olhamos, abismados

suas mãos a prendê-lo.

Suave franjinha morena,

longas madeixas castanhas

ou mesmo a punk estranha

traz a magia de Helena.



E jeito que dança na festa

com suas mãos tão pequenas,

a forma como caminha,

o sinalzinho na testa.

E quando assiste seresta

com olhos amendoados,

azuis, verdes, dourados,

janelas de alma honesta.


Pensamos: há de ser minha.


Na forma como rebola,

a blusa molhada que cola,

na chuva que vem à tardinha


talvez seja quase rainha.

Princesa, deusa romana,

linda e perfeita cigana

quando em meu colo se aninha.







X





Quem sou eu?

Do que sou feito?

Será que existe jeito

para o problema que não é meu?

E o que se pergunta o ateu,

uma incógnita vezes duzentos?

Me diz como agüento,

o que não aconteceu?






Para entender Maria José




Uso carinho como fuzil

de bomba que não explodiu.


e


Faço de mil palavras munição

para perfurar a emoção

que teima em ser um vazio.


Mas


não me falta coragem

para furar tua blindagem


que


impede a todo mundo

de ver teu eu mais profundo,

tua verdadeira imagem.


Diz-me




Diz-me aonde queres ir

que te levo, meu amor.

Paris, Pequim, Japão,

Ilha de Tonga, Disney, Gabão,

Pólo Norte, Timor

Leste ou oeste, não importa

pois aonde quer que desejes ir

eu te levo, se reconforta.


Diz-me o que desejas

que te dou, meu amor.

Anel de ouro, de prata, rubi,

livro, revista, gibi,

casa, apartamento, cachorro,

já disse: por ti eu morro

e faço o que quiseres.

Serei sempre o teu homem

e você, todas mulheres.


Diz-me pelo que anseias

que lutarei por isso, meu amor.

Paz de espírito, fim da fome, do pavor,

do aquecimento global,

fim das doenças, de todo mal,

das queimadas, das enchentes,

da tristeza que assola as gentes,

te dou até a paz mundial.


Diz-me como me queres

que assim o serei, meu amor.

Cabeludo, careca, gordinho,

sarado, maltrapilho, terno de linho,

estico minhas pernas e fico mais alto,

ou corto meus pés para ser baixinho,

e me comporto como quiseres.

Posso ser lorde, nobre, cavalheiro

ou rude, grosso, matreiro,

mas sempre fiel escudeiro

se não me depuseres.


Sou tudo o que desejas

e tudo o que mais queres

Pois sei que sou teu homem

e que você nasceu

para ser todas as mulheres.


Queres?


Chocolate com Café




I



Certo dia me disseram

sussurrando em voz suave

que existe uma fórmula

capaz de tudo curar:

tristeza, choro, saudades,

dor de cotovelo, sono, cansaço,

paixão não correspondida,

ausência daquele abraço,

amargura, rotina, desentendimento,

brigas de namorado,

até problemas em casamento.

Nada,

nada

fica quebrado.



II


Então tudo parece bom,

nossa mente se torna alegre,

coração bate e rebate

em belo e pausado som

quando ouvimos este tom

doce como colo das avós

bem poucos segundos após,

em completo disparate,

sentirmos em nossa boca

a fórmula mágica e louca

do café com chocolate.








Assalto




Parado aí, meu irmão.

Susto, pânico, coração a mil.

Com a vida por um fio

me viro, encaro o ladrão.

E ali, na sua mão

reluz o cano cromado.

No gatilho o dedo pesado,

minha história por um tostão.



Eternamente Efêmero

(Toda verdade sobre o amor)



Definitivo, palavra torta.
Para sempre, junção improvável.
Esteja errado, seja louvável,
quase tudo pode mudar.
Agir, falar, amar,
refletem apenas um momento,
e todo pensamento
sai em busca de novo lar.


Sentimento imutável, hipocrisia,
construção sólida, fragilidade,
preciso experimentar, vem a idade,
somente a vida tem um fim.
Alma insana, agora sim
despertar do desespero.
Todo um mundo em atropelo
passando por sobre mim.



Quero teu beijo, todo seu corpo,
preciso de sua alma.
Insanidade cede, acalma.
Vida é céu, não mais inferno.
Primavera, verão, fim do inverno.
Corpo, alma, coração,
de novo, verdadeira emoção.
O momento fica eterno.






Oblíqua





Disse que nasci torta,

sem rumo, desastrada,

feia, sem graça, errada,

burra como uma porta.

Mas tenho a faca que corta,

e mamãe vai me pagar,

sofrer, gemer, gritar -

eu viva, ela morta.


Desesperadamente




Desesperadamente

preciso de uma mulher


que me deixe sem chão sob os pés,

que me desmonte por dentro,

que derrube minhas barreiras,

que dizime minhas defesas,

que me deixe todo errado,

que me faça arrumar o cabelo,

que me faça escolher as roupas,

que me faça pulsar de desejo,

que me tire a fome e o sono

e que eu só pense no seu beijo.


Desesperadamente

preciso de uma mulher


que me faça suar frio em pleno inverno,

que me faça fazer força para ficar em pé,

que eu gagueje cada palavra que tente dizer,

que eu feche a boca para que o coração não fuja,

que eu tente parecer normal e não consiga,

que eu não saiba em que posição ficar,

que eu não saiba o que dizer,

que eu não entenda nada do que vejo,

que eu só sinta seu cheiro no ar,

que eu só pense no seu beijo.


Desesperadamente

preciso de uma mulher.


E não temos que ser um só.

Seremos mais do que dois,

seremos alguns milhões,

saberemos do que outro gosta,

adivinharemos nossas vontades,

nos acompanharemos, estaremos lado a lado,

cúmplices absolutos, serenos,

grandes, enormes, pequenos,

alegres, felizes, cheios de desejo,

assim seremos nós.

Mesmo que eu só pense no seu beijo.


E se eu encontrá-la,

se eu realmente amá-la,


ficarei tonto ao abraçá-la,

sorrirei sem motivo algum,

cantarei o dia inteiro,

sonharei de olhos abertos,

não deixarei que nada de ruim lhe aconteça,

farei tudo, tudo por ela,

colorido será o que vejo,

viverei o momento eterno,

mesmo que eu só pense no seu beijo.


E quando a tiver em meus braços,

sei que já posso morrer,

posso de tudo esquecer

romper todos os laços.

Porque junto ao abraço,

doce e suave desejo,

flutuo, delírio imortal,

assim que sinto o seu beijo.



Esquina



Naquela estranha esquina

sobre caixote amarelo

baila graciosa Catarina

tal qual primeira bailarina

de um lindo castelo

que nem soberano tem

e onde não mora ninguém.

Universo paralelo.


Dança e a todos encanta,

faz padedês, flutua

mesmo que ninguém a veja.

Sobre a caixa de cerveja,

baila no mundo da lua

peças clássicas, modernas,

coreografias de tabernas

ali ao lado da rua.



E este é seu teatro,

seu Coliseu,

seu legado -

na esquina da avenida Brasil

com o Beco do Enforcado.






Cão




Faminto, rasteja,

pede, suplica, implora

com olhar que quase chora,

gane, mostra costelas, fareja

comida é só o que deseja,

mesmo podre, decomposta,

mastigada, imunda, deposta,

migalhas e restos festeja.















Isabela




No dia em que Isabela

decidiu amar de verdade,

mesmo que em tenra idade,

menina quase mulher,

uma estrela qualquer

riscou o céu da cidade

desenhando linda tela

para o sol nascer mais tarde.


De sua beleza imensa,

que nem em seu nome cabe,

brotou ternura suave,

vontade, toque, desejo.

Faria tudo por um beijo,

um carinho, um afago,

qual pedra que cai no lago

e toda superfície deforma,

ou compressa d´água morna

que cura qualquer estrago.





Vejo em seus olhos de amêndoa

verdades de quem se importa,

que tornam viva a alma morta

na casa em que sonho dormir,

desejo ficar, não quero ir.

É nesta calma que vou habitar

ao seu lado me deitar.

Bato, peço passagem -

é o fim de minha viagem.

Suavemente abro a porta.


Pois entre todas as mulheres do mundo,

só a desejo, só quero a ela,

um milagre particular,

uma vida,

Isabela.





Hospital




No longo corredor

empilhado sobre maca

só espera pela faca

que possa tirar a dor.

Em meio a todo pavor

do corredor gelado

com semimortos ao lado

exalando fétido odor.





Janela





Eu penso nela,

ela pensa em mim,

e no caminho sem fim

que surge pela frente

o homem se aventura,

a mulher se ressente.


Ela olha para mim,

eu olho para ela,

e por essa janela

que se abre n’alma

o homem se perde,

a mulher se acalma.


Eu toco nela,

ela toca em mim,

e quando o não vira sim,

o talvez uma certeza,

o homem vira vassalo,

a mulher, uma princesa.



Ela abraça a mim,

Eu abraço a ela,

e a vida fica bela

em apenas um instante.

O homem quer excesso,

a mulher, só o bastante.


Eu beijo ela,

ela beija a mim,

E quando parece que enfim

o amor vai florescer,

o homem passa a chorar,

a mulher, a tremer.


E

ela se entrega a mim,

eu me entrego a ela,

e ao ter a certeza de ser aquela

a pessoa que se quer,

a mulher se torna o homem,

o homem se torna a mulher.






Jornal




Vê na capa de jornal

a foto do seu rebento

e celebra o momento

que chegara, afinal

o sonho de ser o tal

era calçando as chuteiras,

mas cheirou tantas carreiras -

face branca de cal.


Mundo Estranho




O mundo anda estranho, torto, confuso.

Compro, jogo fora, nem uso.

Seis bilhões e muitos no mesmo fuso.


Quem sou eu, o que está acontecendo?

Serei o recém-nascido que já está morrendo?


Ele distorce, atrapalha, escorre.

Hoje, quem não mata, morre.

E quem não teme, mesmo parado, corre.


Até o dinheiro agora é de plástico.

Nosso domingo virou algo Fantástico.

Assassinos presos em algemas de elástico.


Por quê? Vamos, responda!

Tire de mim esta maldita sonda!


Felicidade? Pode ser medida, tem valor.

Compram-se no atacado doses de amor.

E no varejo, porções de terror.


Estamos imóveis em velocidade infinita.

Mulher que nasceu feia fica bonita.

Chamamos de alimento a batata frita.


Pior de tudo, em minha horta,

só nasce ervilha torta,

e essa lâmina que não corta!


E quem é você que eu beijo no cais?

Se o que você era não existe mais?


Mas estou atento

ao que diz o vento,

pois a culpa é toda sua.

Aí parado no meio da rua.

Lendo revista de mulher nua.


Mas a perda foi toda minha.

Gastando tudo que tinha.

Fazendo você, rainha.


E por isso, só por isso,


preciso condenar um ser humano.

Fazê-lo entrar pelo cano.

Fazê-lo boneco de pano.

Penar por desconstruir Luciano


E alguém há de pagar,

por esta falta de ar,

de um par, de um bar,

de lar.


E outros vão ter que sofrer,

pelo que sou obrigado a ter

e pelas coisas que vejo

e que despertam terrível desejo

De algo que não quero ser.



E você que enxerga e não vê?

E ele que tem fé e não crê?

E aquele outro que quer ser você?

Porque detesta o reflexo que vê.



E eu que

escrevo, escrevo, escrevo, escrevo,

escrevo, escrevo, escrevo,

escrevo, escrevo,

escrevo,

por que tenho certeza de que ninguém lê?





Olhos de Luar





Ausência que despedaça,

nada resta, estou vazio.


O corpo vida sai à caça

recolhendo pedaço frio.


Busco abrigo, calor, alma,

tremo, paraliso, quero calar.


Minhas suplicas pela tua calma,

ressurreição, teus olhos de luar.




Porta




Sei que ela não está morta.

Assim suporto a dor,

ausência de seu amor -

dias olhando a porta


em noites a esperar

qual máquina de chorar

bem menos que uma casca

de ovo sem conteúdo.


De pássaro que canta mudo

pousado em galho fino

querendo que o destino

contenha minha revolta.


E olhando a mesma porta

de mogno, tão pesado

vivo só o passado

enquanto ela não volta.




Papeleiro




Livros, jornais, revistas, que joça.

Manuais, compêndios, relatórios,

memorando de escritório,

documentos aos quilos na carroça,

homens fazendo troça

porque não sabem ler,

e todo aquele saber

recicla, vira pasta, empoça.


Saudade




Ah, se antes eu soubesse

que saudade tem forma,

cor, cheiro, tamanho,

seria para ela um estranho,

teria mudado de calçada,

não atenderia ao telefone,

talvez não fosse mais homem

e sim animal que não pensa,

livre de dor intensa.

Saudade sente muita fome.


Tento segurá-la por entre as mãos

como uma bola gigante

tão difícil de carregar,

tanto medo de perdê-la

qual criança pequena

que da boneca tem pena

e respeita o sentimento

do brinquedo que num momento

torna-se disforme, liquefeito.

tento evitar, de qualquer jeito

que escorra por entre meus dedos,

mas saudade é feita de medos

de ausência do ser perfeito.


É laranja, verde, às vezes rosa,

na maioria dos dias vermelho,

cores tão fortes que ofuscam,

tão escuras que não as vejo,

arco-íris de desejo

que minhas retinas buscam.


E o cheiro, é sempre o mesmo,

alecrim, lavanda e suor.

Dos perfumes, sempre o menor

senti no seu regaço,

e se fundiu num abraço

essência do que há de melhor.


Mas tamanho, tamanho não tem,

pois já não cabe em mim,

é maior do que onde vivo,

expandindo-se além do fim,

quase uma coisa infinita,

tão imensa, tão poderosa

qual bola amarela,

tão forte e relevante

que vira pó no instante

em que volta para mim Isabela.








Relações




O destino de nosso mundo

seria fétido e imundo

se não houvesse o altruísmo.

Porque o egoísmo

é tão devastador

que faz a bomba atômica

e sua explosão cônica

parecerem tapas de amor.


Semelhanças



Você é céu, eu sou terra.
Se eu sou nuvem, você é espaço,
e no calor do teu abraço
nossos corpos a tremer,
desejando enlouquecer,
vencidos pelo cansaço.


Você se acalma, eu me agito.
Quando sussurro, você berra.
Somos semente coberta de terra
lutando, querendo crescer,
torcendo para o sol nascer,
buscando paz nesta guerra.

Você quer mais, eu peço tempo.
Eu solicito, você paralisa.
Suas palavras viram brisa
refrescando toda emoção,
envolvendo meu coração,
sonho se realiza.



Tão distintos, tão diferentes,
sensação de não dar mais
repetindo nossos ais,
construindo um futuro,
mas só uma coisa asseguro:
somos dois, exatamente iguais.




Sumiço




Como sempre acordou Maria

nos últimos cento e vinte meses,

sem contar quantas vezes

vira raiar do dia.

Fez tudo o que podia

para tentar entender

por que foi João desaparecer

levando na mala sua alegria.


Vida



E se fosse mesmo verdade...


Que a vida pode ser boa

com vento, chuva, garoa,

sol, nuvens, tempestade,

será que é mesmo verdade

essa sensação tão boa,

essa palavra que entoa

capaz de falar sem alarde,

de noite, de manhã e de tarde,

a cada hora da vida

na volta, na vinda, na ida,

quando todo meu corpo arde

e amor nos ouvidos ecoa,

musica, cinema, caminhar, comida,

dormir, chorar, sorrir, bebida,

tudo.

Com ela a vida

é mesmo boa.



Simpatias




Luto


todos os dias,

noites e madrugada

esta guerra desgraçada

que travo minuto a minuto

contra minha alma de luto


para tirar

ela de mim.


Bebo chá de capim

em ponto de ebulição.

Me banho com chocolate,

coloco em três esquinas

galinha e amendoim,

pepino com mandolate,

charuto de procissão

com nome escrito a nanquim.



E

pulo em um pé só

dizendo esqueça, esqueça

pelo bairro onde ela mora

batendo em minha cabeça

até que meu corpo chora

e coloco ramos de amora

detrás de minha orelha,

mas só do lado direito,

porque no esquerdo do peito

ela ainda mora.


Mora,

habita, vive,

em fortaleza indestrutível

que resiste a todos os assaltos,

com muros cada vez mais altos,

na mais linda das torres,

segura e inatingível.


E...

posso tentar o que for,

já me conformei,

pois este amor

É...

indestrutível.






Quimera





Todos temos um fardo,

um peso, uma cruz.

Ferida cheia de pus,

olho furado por dardo,

filho que nasce bastardo,

defeito, erro e falha

que cansa, pesa, atrapalha,

perfura sonhos, petardo.


In com Ciência




Eisten Alberto

mostrou ao mundo a língua

e o átomo foi aberto.


Newton José

deitado, sob a macieira,

sentiu a maçã no pé.


Da Vinci Leonardo

fez de tudo na vida,

foi até veado.


Cruz Osvaldo

de muitos salvou a vida,

vacinou, curou ferida.


Mozart Amadeus

por pouco não foi um deus

com suas músicas sacras.




Zoroastro, Maomé, Jesus,

Pedro, Vishnuu, Buda,

ser crente ou ateu,

a vida de muitos muda.

Ter um deus é direito seu,

e nossa! Como ajuda.




Mão, Pinochet, Trumann,

Hiltler, Mussoline, Videla,

todos porcos imundos.

Estes não entram no céu

nem pela porta dos fundos

nem por alguma janela.




Todos, todos diferentes.

Todos, todos meio loucos.

Mudaram o mundo aos poucos,

para o bem e para o mal,

mas nenhum era normal

como eu ou você

e sabes bem o porquê.

Gênios e demônios não são humanos,

pois passam anos e anos

causando morte e espanto,

risadas, surpresa, pranto

a todos os demais.

Por isso são sempre lembrados,

não morrem,

são imortais.





Merda




Escuta aqui, retardado,

tá pensando que vai me fechar?

Vai te fuder, te cagar,

desgraçado, animal, veado,

corno, puto, mal acabado,

tô cagando que tu tá de luto,

veado, corno, puto,

te quebro a cara, desgraçado.



Palavras





Não existem algumas palavras

que parecem nascidas tortas?

Desengonçadas, capengas,

Mal acabadas, semimortas?


Não me conformo, protesto,

me expliquem por que “resto”

é a sobra do que não presta

deixada em soleira de porta?


E onde esta o "h" de umidade,

uma letra quase molhada

que devia existir em água

que é feita de H2O

e que nunca se usa só

porque nem som tem

e que sem avisar ninguém

foi parar lá na entrada horta?

Por acaso alface, tomate,

Cebola, nabo e repolho

precisam de algum “h”

para virarem molho?


E as palavras que são tacanhas,

confusas, sem sentido

que doem no fundo do ouvido

com sons que a garganta arranha?


Estranho não pede um "x"

no lugar daquele "s"

que se meteu em meio a cresce

sem a menor cerimônia.


Imagine a palavra esdrúxula

misturada com amônia -

isto é coisa de bruxa,

ou talvez de feiticeira

com seus dois “i” soltos

que deixam palavra faceira,

mas pode ser só magia

que também tem “I” sobrando

e para que botar mais um “s”

se só queremos descer?

O que tem na piscina

é para quem está afundando?



E por falar e “x”,

a letra do aprendiz,

pois é sempre incógnita,

com este “g” sem sentido,

que dói no fundo do ouvido,

que tem um “u” sobrando,

que não falta no tal de chuchu

nem no filé de urubu.

Meu deus, é tudo com “u”?


Só a palavra nada é perfeita.

Parece que não está lá,

pois quase não a vemos

em todas as frases lemos.


E o “u” na palavra louco,

será o mesmo que te deixa rouco?

Mesmo que digamos

que aquele LOCO tá ROCO,

achas isso pouco

ou POCO?




Letras que não têm som,

ditongos, sílabas no ar.

O português parece que foi

feito só para me complicar.












MÚSICAS


Aos doze anos






Querem que eu beba leite, sucos vitaminados...

Mas no churrasco de domingo, eles bebem, ficam alterados...


Me dizem para ser correto, crescer honestamente...

Mas compram sem nota, na estrada correm loucamente...


Tenho que ser da paz, fugir da violência...

Mas à noite, na televisão, assistimos a imagens que são pura demência...


Querem que eu cresça com amor, seja carinhoso...

Mas eles quase nem se tocam, vivem num clima odioso...


Me dizem para ser sábio, desenvolver minha inteligência...

Mas eles não lêem para mim, falta vontade ou paciência...


Tenho que ser feliz, ser bem-sucedido na vida...

Mas falam muito mal dos outros, me pergunto se há saída...


Espero que eles entendam. Tudo o que falam fere meus ouvidos...

O que preciso são exemplos, são modelos...

Pois só o que vejo faz sentido...

Amor e Paixão


Já me apaixonei

Milhares de vezes

E todas as mulheres

Me deram prazeres

Mas nenhuma delas

Entrou na minha vida

Pois foram paixões

Sempre mal-resolvidas


Paixão só de olhar

Que queima por dentro

Paixão de tocar

Mas sem sentimento


Paixão de uma noite

Que dura uma vida

Paixão de verão

Correspondida


Mas você

Tocou meu coração e me trouxe a verdade

Só de virar o rosto já me dá saudades

Trouxe a minha vida o verdadeiro amor

E com seu beijo doce fez sumir a dor



Paixão de homem

Que busca o corpo

Paixão de mulher

Que quer o conforto


Paixão de menino

que sufoca a gente

Paixão com namoro

Adolescente


Mas você

Tocou meu coração e me trouxe a verdade

Só de virar o rosto já me dá saudades

Trouxe a minha vida o verdadeiro amor

E com seu beijo doce fez sumir a dor


I need a miracle”



I am fourthy years old

And my life become a mess

You just appeer like a tunder

And all my no became in yes


The choices I made when I was young

I know I tried to made my best

I bilt a hole life without you

But now I know you I just can´t rest


I need a miracle in my life.

I just dont know what to do.

There are many paths that i can follow,

But in wicht one i can reach you ?

(2)


I need a sign, I need the north

I must decide my future life

There are no winning without loosing

I want you. But whats the price ?


My heart are slip in many picies

In every one are love in pain

Bring the sunshine to my days

I tired to live under the rain


I need a miracle in my life.

I just dont know what to do.

There are many paths that i can follow,

But in wicht one I can reach you?

(2)


Eu preciso de um Milagre”

(tradução livre – I need a Miracle)



Eu estou com quarenta anos

E minha vida virou uma confusão

Você apareceu como um trovão

E todos meus não transformaram-se em sim


As escolhas que fiz quando era jovem

Eu sei, eu tentei fazer o meu melhor

Construí toda uma vida sem você

Mas agora que a conheço não consigo descansar


Eu preciso de um milagre em minha vida

E não sei o que fazer

Há muitos caminhos que posso seguir

Mas em qual deles chego a você?

(2)


Eu preciso de um sinal, de um norte

Tenho que decidir minha vida futura

Não existem ganhos sem perdas

Eu te desejo. Mas qual o preço?




Meu coração está partido em muitas partes

Em todas há amor e dor

Traga o brilho do sol para meus dias

Estou cansado de viver sob a chuva


Eu preciso de um milagre em minha vida

E não sei o que fazer

Há muitos caminhos que posso seguir

Mas em qual deles chego a você?

(2)



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